11 de novembro de 2012

Ela odiava ser tão poética - Cap. 1

Ela tinha uma visão maravilhosa, mas no âmbito das sensações não havia quem superasse seu olfato. Ela podia controlar o que via, fechar os olhos, sentir e ouvir o que quisesse, era só uma questão de vontade. Vez ou outra, andando pela rua, ou quando acordava, sentia o cheiro de dia, cheiro de vento, cheiro de coisas subjetivas, e então algumas lembranças se manifestavam em espectros que ela conhecia, mas não se concretizavam de fato em memórias. Do que ela estava lembrando? - se perguntava. E era assim que o dia dela valia a pena.
Ela detestava ser tão poética. Dizia ainda no âmbito das sensações, que não gostava do sol do meio-dia, aquele sol tinha cor de luz, mas havia um sol que tinha cor de sol, e esse era seu preferido. Vai entender!
- Você é estranha - Era um uníssono depois que voltou dançando nos corredores nas pontas dos pés. Ela ainda se considerava uma bailarina. 
- Não sou estranha! - E não era mesmo, era somente extremamenteintuitiva, segundo sua própria visão. 
Não espere a história de uma garotinha linda que mudou o mundo pelo seu ponto de vista. Tinha amigos, às vezes bancava a garota mais popular da escola, fazia tudo o que você faz. 
Quando ficou frente à frente a eles não sabia o que dizer. Qual o discurso de uma bailarina não reconhecida? Soltou meia duzia de informações relevantes. Havia um cronograma próprio para orientar quando não se tem o que dizer, é só ser técnico, científico e funcional, guarde informações convenientes ao dia no estoque de “Coisas de Segurança”. 
- Não fiquem passeando pela escola, hein? Hoje tem matéria nova de matemática, superimportante. Mas se decidirem passear, tem teatro de português a ser apresentado pelo segundo ano, vão lá rir da cara deles um pouco! - Sorria e gesticulava com as mãos enquanto seguia seu caminho de costas no andar cambaleado, não soava descontrole, soava malandragem. Ela fingia tão bem. 
- Tudo bem! - E o uníssono retorna, agora em riso. Eles nunca tinham o que dizer diante dela, assim como não tinham um estoque de segurança. 
Seguiu frenética até a sala, esqueci de informar que também era agitada. Em tudo, nos pensamentos, na fala, no processo de digestão.
- Hoje verei meu boyfriend! Tem reunião do grêmio e não importa se eu tiver que agarrá-lo, eu vou chegar mais perto desse menino, Gabi. 
-  Você é fraca, no final das contas você sabe que dá para trás. 
Um outro cronograma dizia para ser verdadeira sempre. 
- Não mesmo, eu como pelas bordas, é diferente, Gabi.
- Não, você não come. Não come nada e nunca foi comida!
- E nem quero!



- Quer. 



- Não discute, Gabi. Não quero. 


- Ser comida você pode não querer, mas que fica se remoendo aí nesse amor platônico, você fica. 

- Amor platônico?!

- É. 

- Você sabe que eu não quero namorar, que não sei namorar, não tenho paciência para isso, sabe que eu não foco nisso, que penso mais em mim e na liberdade… 

- Você disse quatro não’s em uma só frase Isabella, o que você está querendo provar?

- Vai se foder, Gabriela. Você e sua racionalidade! Tô falando do meus sentimentos, não estou te fazendo um teste de morfossintaxe! 

Geralmente, quando Gabriela interpretava a garota mais popular da escola irritava a todos. Era a natural defensora desse tipo de pessoa, os estereótipos dizem de sua maldade e hipocrisia, mas queiram sim ou não, Gabriela fazia todos aceitarem que o fato de serem garotas preocupadas com a imagem faziam delas verdadeiras formadoras de opinião que exteriorizavam suas atitudes de todas as formas, que maldavam os trouxas por serem trouxas e viam a vida como um jogo e a escola como um campo de batalha. Elas queriam jogar, impunham as regras e jogavam majestosamente. E isso é egoísmo? Não, isso é não se submeter ao sistema, isso é aprender na prática. Ah, e quem disse que as abelhas-rainha são burras e frescas? “Vocês assistem filmes americanos demais!” Era o gran finale do jogo de argumentação do assunto das Garotas Mais Populares da Escola. 
Ouviu falar um pouco sobre pi e o período de uma função, aquilo a agradava. Era algo a mais na “Caixa de Segurança”. Matemática era uma espécie de filosofia exata. Filosofias exatas, era disso que precisava. 
- Filosofias exatas… É disso o que eu preciso. - Repetiu para si mesma enquanto dançava cambaleante nos lances de escada até o ponto de ônibus.
Seus pensamentos foram interrompidos por uma vibração que ela conhecia e outrora fora motivos de vibrações no peito. Tirou o celular do bolso e olhou o remetente da mensagem: número desconhecido. 
“Oi Gabi, fiquei muito feliz que você tenha falado comigo ontem, as coisas estão ruins aqui na Capital, você sabe! Quando você vir para cá, me avise que almoçamos juntos e terminamos o assunto, não se esqueça maninha. Wesley”. 
- Droga, eu prometi. - Registrou na sua caixa de “Coisas Arriscadas”.
Ignorou por um segundo a mensagem e abriu novamente sua caixa de texto. 
“Leid, quando as pessoas partem costumo não ir atrás delas, me sinto mal, porque elas merecem que eu vá. Mas algo impede meus laços de ficarem firmes e fortes, não sofro com partidas, nem com a distância. Na verdade, preciso dela.” 
Opções. Enviar. Escolher na agenda telefônica. Leid. Enviar. 
Sua mensagem foi enviada com sucesso! 
Parou e acomodou-se novamente no banco do ponto. O sol era cor de luz, franziu o cenho. Detestava perder tempo, ficar parada, ser improdutiva. Detestava aquele sol. 
Nova vibração. 
- Não seja você, Gabriel. Não seja você, Gabriel. Por favor, não seja você, Gabriel. 
Repetiu baixinho para si, como uma profecia para o que estava por vir. Respirou. Respirou novamente. Não queria que fosse ele. Olhou para o celular, encontrou as letras G A B R I E L ordenadas respectivamente.
- Puta que pariu!
Não abriu, levantou e resolveu ir andando. Que aquele sol fritasse a cara dela, que sua calça jeans fizesse ela derreter. Ela lembrou que já abrira mão dela mesma quando aceitou ler aquelas letras, ouvir a sonoridade daquela palavra, e principalmente beijar a boca de quem um dia se apresentou ser o Gabriel.

4 comentários:

  1. As primeiras linhas me lembrou eu! Eu tenho essa mania de sentir cheiro de tudo, e tudo me lembrar algo que eu não sei direito oque é, será que sou doida? rs

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  2. Sério flor? hahaha magina, é assim mesmo,você não é a única... Pode ter certeza ;p

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