13 de novembro de 2012

Ela odiava ser tão poética - Cap. 2

O trajeto não era longo. Era uma linha reta e aberta de pouca movimentação cercada de uma vegetação de manguezais até alcançar o centro da cidade. Ponto de ônibus era o que não faltava naquele lugar, era só escolher um deles e acomodar-se embora tenha ficado confusa para decidir em qual deles parar. 
Aquela confusão significava alguma coisa. Detestou ficar irritada por causa de uma mensagem.
- O que é que eu estou procurando? - Ficava puta quando não se controlava, na verdade, ela sempre fica. 
Visão, tato e paladar arruinados pelo sol e o calor. A audição que não tinha já confusa com a poluição sonora. O olfato sentiu o cheiro do mar…
Acomodou-se na areia da praia, por um momento quis deitar e sujar todo o cabelo. Mas não o fez. Fechou o os olhos e trouxe o celular à mão. Ergueu, abriu os olhos e leu:



“Gabi, venha até o morro a hora que quiser, provavelmente quando o sol estiver cor de sol, mas venha porque eu preciso falar com você. Gabri.” 

Detestou furtivamente aquele garoto idiota, queria que ele desaparecesse da sua vida ali. Não se tratava de arrependimento porque faltava motivos para isso, mas passado é passado e seu corpo já tinha feito força o suficiente para repelir tudo o que poderia vir dele. Ele era parte fora de sua vida, não lembrava do perfume dele, nem do gosto dos lábios, nem do arrepio de seu abraço, a voz rouca de pedrinhas de areia era vaga, o rosto angelical já não era tão angelical. Todos os sentidos junto com seu corpo por inteiro o condenara e agora ele queria penetrar numa casca quase recuperada. 
“Onde estão minhas filosofias exatas nessa hora? Cadê a minha antiga lógica para o amor? Eu conseguia calcular tudo isso, demandar cada sentimento, prospectar o que estava por vir…
Fez uma análise morfossintática dos verbos… Calcular, demandar, prospectas… E reparou a racionalidade em suas palavras. Isso inaugurou um alívio feliz e registrou na “Caixa de Esperança”.
Deixou se invadir por um sentimento protetor, aos passos rápidos e largos voltou ao ponto e esperou o ônibus para sua casa como se ele fosse aparecer no final da rua no segundo seguinte. Depois de tantos segundos o ônibus apareceu, ela entrou e viu a caixa na qual estava segura. Fechou os olhos de mentes vazias e só os abriu novamente quando chegou ao ponto de sua casa. 
Gabriel a viu ao pé do morro, subindo lentamente como quem queria apreciar a paisagem. Grandes árvores de caules lisos se enfileiravam á beira da rua. Subida íngreme e asfaltada que não perdia a beleza da floresta, o concreto ali não tinha vez. Ela já o tinha visto a muito tempo, mas agora apenas aceitava a encará-lo na hora H. O que ele queria? - se perguntava. 
Ao meio do caminho começou a saltitar, estava sim nervosa e queria sim chegar logo. Não tinha outra opção além de aceitar para si mesma que ainda havia pedaços dele registrados em alguma caixa inconsciente.
“Essa merda dessa caixa deve se chamar amor, filha da puta”.  
Alcançou por fim o topo. Apreciou o suficiente a paisagem e conclui que “nada de suspense por agora”, seguiu em uma pequena trilha já o vendo cada vez mais perto, olhos fixos e corpo frenético. Parou ao lado dele e houve cinco minutos de silêncio. Os dois sentiam um compromisso de respeito ao local, afinal, era um morro à beira do mar. Um morro enorme e um mar maior ainda, sem casas, nem ônibus, nem gente. Não era preciso explicar qual a sensação, eles não sentiam necessidade de palavras, porque hoje em dia, até a honra de uma palavra na boca das pessoas são mais medíocres do que quem as pronuncia. 
- Estava com saudade, Gabi. 
Alguém tinha que iniciar o assunto. Gabriel exitou, Gabriela não correspondeu. Para ela era impossível fazer a mínima ideia de como agir ou do que sentir. Sempre há uma linha tênue entre o que você quer fazer e o que você faz… Ás vezes você faz o que quer sem perceber. Ás vezes não.  
- Realmente, já faz uns bons meses que não nos vemos. - É claro que ela resgatou isso da Caixa de Segurança. Os passos exitantes de uma garota apressada não eram somente para apreciar a paisagem da subida. Com Gabriela, quase nada era por acaso. 
- Me diga logo Gabri, o que é que você quer garoto?
- Você.
- Não-me-venha-com-esse-pa-pinho-cli-chê. 
Ele a tirava fácil do sério. 
- Eu sei que você detesta todo esse show. Mas estou abrindo uma exceção, se a gente não se resolver, vamos ficar assim perdidos um no outro para sempre. 
Ela sabia que “perdidos” não era a a palavra certa para eles, mas Gabriela não pediria para que o mundo todo fosse tão estranha e racional como ela. Mas queria. Garota Mais Popular mode on.  
Parou e pensou um segundo. Resolveu desarmar e se deixar levar pela sinceridade.
- Onde foi que a gente errou, Gabri?
- Alguma coisa simplesmente tinha que dar errado, se não, não tem graça. - Sorriu e ela detestou.
- Eu vou embora. Eu vim até aqui, sabia que você queria me convencer a alguma coisa. Não Gabriel, chega. Você consegue ver que é patético? A historinha fofa de Gabriel e Gabriela, até os nossos nomes juntos parecem tão ridículos…
- Discordo. - Ele estava usando o jeito dela contra ela mesma, era a única maneira de fazê-la entender.
- Se continuarmos insistindo só por teimosia aí sim nós iremos nos perder. - E ela não podia perder a oportunidade de corrigi-lo.
Ela deu as costas e correu. Sem pensar, simplesmente fazendo. Se há algo de inédito até agora é a parte onde Gabriela não pensa e faz. Não consegue pensar, exitar ou agir. Deixou seus pés levarem-na, sem saber ao certo onde estava seu cérebro nessas horas. Gabriel estava confrontando-a e conseguindo o que queria.
O que ela tinha de racional, ele tinha de teimoso. É claro que ele a perseguiu, que correu mais rápido e que a alcançou.
- A quem você está tentando enganar? Olha só para você! Em choque, em transe, ofegante - isso seria difícil esconder - você enlouquece quando fica confusa assim em si própria. Isso só prova que não encontrou motivos para me esquecer, que está com medo. Esses meses todos foram puro medo.
Ela sentiu o coração parar por um segundo.
- Eu não vou desistir. - Esse era seu gran finale no assunto Gabriela. 
Beijou-a. Só para deixar bem claro, para sentir de novo, para acabar com qualquer resistência que ainda podia existir nela. Queria fazer a racionalidade se esvair e restar a poesia. 
As coisas fluíram tão bem como Gabriel queria que em alguns poucos minutos eles já estavam sentados em fileira, ela apoiada nele, quase viciados na visão do mar. O pôr-do-sol chegara. Ele se silenciou por um tempo, queria deixá-la apreciar seu sol e sua cor preferida. Queria que ela não se esquecesse desse momento.
Era por isso que ele estava ali: nada de deixá-la se esquecer de como eram tão compatíveis. E assim todas as dúvidas seriam apagadas de alguma caixa desconhecida. Ele errou demais, mas a conhecia o suficiente para saber que não importasse o quão inacessível fosse, exista também uma caixa para o perdão.
- Você vai conseguir me perdoar?
- Vou. 
- Vai ficar comigo? 
- Vou.
- Vai esquecê-la?
- Esquecê-la?!
- Mariana. 
- Foi você quem me lembrou…
Gabriela não conseguiu disfarçar o desconforto, a insegura, o terror correndo em suas veias…
- Eu já te pedi desculpas por ter me confundido com ela, por ser tão… Carnal, como diz você. Eu não percebi do que abria mão e estava fraco naquela época… Estava aposta… Apos…
- Apostático. 
- Isso, você sabe.
Aquele assunto deveria ser esquecido, toda vez que ele se desculpava fazia aquela história voltar a fazer parte da vida deles. Quis então sair de sua zona de conforto: os braços dele.
Instintivamente era muito mais fácil deixar ele conduzir, falar, tomar a decisão, forçá-la a beijá-lo, mas não era mais o caso. Ela estava se decidindo, adquirindo o próprio rumo das coisas. A presença dele já não era tão horrorosa e encarar o problema em reta final não parecia tão doloroso.
“Calma garota, o pior passou”
A ausência dele fez a racionalidade ser maçante ao espírito dela. A dúvida já a tinha consumido, e aprendeu a conviver com o terror. Mas isso era passado, ela não tinha o que temer, só o que perder. Mas a perda já havia sido um medo superado. 
Colocou a mão disfarçadamente por cima do shorts escuro que usava, no bolso sentiu um pequeno volume. Lembrou da cena em que usava uma caneta-tinteiro conveniente a ocasião, o consciente gritou por tamanha cerimônia, mas escreveu num papel a conclusão dos últimos tempos. “A perda é um medo superado.”.
Esta era uma nova lei para a “Caixa de Força”.
Virou-se para ele, e aos pequenos beijos dizia:
- Já perdoei e já estou aqui contigo, não quero ficar olhando para trás e tirar conclusões sobre algo que… Olhe só para nós, é completamente desnecessário. 
Beijou-o por fim. E assim seguiu a tarde toda, ficaram dessa vez finalmente perdidos em seus gran finales e nas sensações provocada um ao outro. Eles se conheciam tão bem.                              

Leia o primeiro capítulo aqui.

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