20 de novembro de 2012

Ela odiava ser tão poética - Cap. 3

- Ei, Gabi!- Ele a cutucou e ela acordou rápido por causa do frio. 
Ela abriu os olhos com a visão pouco nítida, o céu estava quase escuro e o mar estava cada vez mais iluminado pela lua. Estava anoitecendo quando sentiu a desorientação no tempo. 
- Porra! O que aconteceu? - ela se ergueu do peito dele, olhou em volta, reconfigurou os pensamentos, conferiu a si mesma e ao garoto que estava atrás dela. Uma interrogação se estendia no rosto dele.
- Não fala palavrão, menina. Você dormiu no meu colo. Não quis te acordar e você…
- Está noite, temos que ir para casa. Gabriel estamos no pico de um morro! Você entende isso? É perigoso! Você me deixou dormir, como? Enlouqueceu? 
Ela falava rápido, tirou isso de alguma caixa que conhecera, mas ainda não tinha dado nome. 
- Relaxa, é verão. A cidade está cheia e se você olhar um pouco em volta vai perceber que há turistas aqui, turistas com criancinhas e cachorrinhos, não psicopatas!
Reparou de novo no ambiente e era verdade. Burburos e movimentação enchiam o lugar. Mas dessa vez não queria arriscar. 
- Ok! Mas vamos embora. Agora. Levante.
Em menos de três minutos retomaram a trilha e estavam nas ruas do morro. Mas havia uma diferença comparada à subida, a escuridão. O morro agora era úmido e frio. A natureza exuberante converteu-se em misteriosa e assustadora. Já não olhavam admirados a copa das árvores, o olhar era cauteloso nas frechas dos caules. 
- Muito esperto, Gabriel. Os turistinhas fofos de cachorros lá em cima vieram de carro, ok? Ninguém é trouxa de cruzar essas ruas, só a gente. Você devia ter me acordado…
Ela sussurrava, estava irritada e… ela confessa a si mesma que ama o medo e a tensão. Quase ama o perigo. Não a adrenalina, adrenalina é problema, risco é potencial. Gostava de olhar em volta e achar uma solução miraculosa. Todo equilíbrio precisa de duas contradições, nesse caso elas pesavam para o mesmo lado. O ego queria provar a si mesmo como ser incrível, e uma espécie de poesia negada queria colocar em prática todas as objeções que um sistema maldito limitava. A única coisa que podia era dançar na ponta dos pés… E mesmo assim esse ato soava sempre muito estranho. É verdade que falta um pouco de noção do perigo. Ela se virava muito bem, seu corpo pedia para viver mais e melhor toda vez que resolvia dar atenção a detalhes tão subjetivos como a cor do sol. A lua roubara a cena do amor. Quem ligava para o sol? Ele era maldoso e escaldante, sinônimo de corpinho esbelto para o verão, uma energia luminosa que as propagandas de protetores solares tacharam Raios Ultravioletas. 
- Por que ta sussurrando? Estamos sozinhos aqui. 
“Ele é um impetuoso, safado, irresponsável e inconsequente. Vou acabar com ele”
O tempo lhe concedeu o dom de mapear os pensamentos.
- Não, não sou esse cara todo errado que você pensa que sou. - vangloriou-se por saber exatamente o que ela estava pensando. 
Até daria para retrucar algo, mas de repente Gabriela estagnou e fixou os olhos no chão. Qualquer pessoa como ela teria percebido que quando se está em choque e olha-se para o chão ou a pessoa está vendo algo muito incrível no chão, ou ela está aniquilando a atuação da visão para dar predomínio a outro sentido. No caso, audição. Mas é claro que Gabriel não era como Gabriela.
- O que é? O que você está vendo aí? - Ao menos se deu conta de que algo estava errado. 
- Shhhhhh! Cale a boca fala baixo, abaixa! 
Segurou o braço dele e flexionou o joelho. Caiu a ficha de Gabriel. Soou o alerta. Eles gostavam de se contrariar vez ou outra, ela ser a Queen-Bee que manda e ele ser o irresponsável que não obedece, é claro que no final das contas ele sempre cedia a ela e ela sempre o colocava em primeiro lugar. Ali era diferente, não ousava duvidar das estranhezas de Gabriela. Só ele sabia o quão especial era cada pensamento torto organizado fielmente em cada caixa, sabia que eram espectros reais que algum dia um cientista iria dar nome e explicação empírico-científica para aquilo. Ou não. 
Gabriel percebeu o barulho, as vozes, as várias vozes. O tom alto, a distância. 
Fim.
Gabriela percebeu diferente. Percebeu a distância da frequência sonora, estudou o tempo em que cada uma delas chegava e a cada sobreposição de som significava uma voz diferente emitida quase ao mesmo tempo. Vozes diferentes emitidas ao mesmo tempo? Então tratava-se de vozes em agitação, extrospecção. Se são vozes, então são diálogos. Significava euforia, debate, comentários. Significavam amigos eufóricos comentando ou debatendo alguma coisa. Analisou o ambiente, o tempo… Turistas, o ponto turístico, feriado… Eram amigos agitados e eufóricos para curtir o lugar, se arriscar e se aventurar no meio do morro. Estavam em bando. Não conhecia suas intenções, mas preferia não arriscar em boas ou ruins. 
Toda essa análise demorou uns cinco segundos, a de Gabriel demorou uns três. Droga. Ele poderia descer o morro, e acabou. Não iria acontecer nada com ele se não quisesse, iria arriscar, ele é um exímio inconsequente, mas somente quando ele quer ser. Não poderia fazer isso com Gabriela, não poderia colocá-la em  tamanho perigo. 
Ambos olharam entre a mata tentando enxergar a mesma rua depois que fazia uma curva de cento e oitenta graus morro abaixo. Eles estavam chegando perto dos dois.
Gabriela olhou em volta, não havia saída. Ou era voltar ou se esconder dentro de alguma casa que havia no caminho. Casas essas de pessoas bem ricas e super protegidas. E a volta era exatamente para o lugar onde os amigos iriam. Arriscar passar por eles? Não. Ela diferenciava o risco do perigo. Não podia fazer o potencial virar fato. Duas coisas havia a se considerar: mato e a rua. O resto estava descartado. Ninguém abriria a porta para eles, e não o fizeram. Era perca de tempo. A vegetação tradicional é de manguezais. Mas aquilo era um morro! Só havia rochas, solo e árvores. Não poderia ter animais selvagens. Aquela é uma área habitada, embora houvesse muita vegetação, a constante presença humana teria afastado animais de grande porte. Ao redor do morro já havia grandes ruas e casas… A floresta não ofereceria o perigo tradicional das florestas.
Conferiu o celular, estava com sinal.
Olhou fundo nos olhos de Gabriel em súplica, e ele entendeu seu pedido para se esconderem na mata. Quando dizem que olhos se comunicam nem sempre é possível provar essa hipótese. Talvez só seja mais fácil entender quem está do seu lado quando você não precisa dar tanta atenção à passagem do tempo ou a página da agenda que anota em imperativo coisas do dia seguinte. Havia alguns segundos para decidir e não conseguiam enxergar nada além de seres fotossintetizantes. A maior fonte de entendimento, vida e informação eram os corpos de um diante os outros.
As vozes se intensificaram ao ponto de se discernir as risadas, eles haviam apressado o passo. Estavam cada vez mais perto, conseguiam ver agora entre as brechas seres em movimentação. 
Gabriel suspirou em resposta, e ela entendeu a resistência. Encarou-o e disse:
- Vamos ficar bem, não temos outra saída. 
Ele desviou seu olhar para mata e franziu o cenho. Identificou algo diferente na mata. Estagnou também e em seguida pegou na mão de Gabriela e adentrou às árvores com a lanterna do celular ligada. Aos olhos dela passavam manchas verdes, a luz da lanterna não era suficiente para iluminar o o seu ponto de vista. Tropeçou, cambaleou, mas Gabriel não parava. 
Quando terminou no meio de uma pequena abertura na mata, encostou numa árvore com o corpo firme, trouxe Gabriela para si tentando escondê-la o máximo possível em seu peito. Ela só obedecia. Eles viviam em sintonia quase perfeita para saber quando se deixar levar um pelo outro. Ela alertava, ele agia. Ela indicava, ele seguia. Ela sente, ele pensa e vice-versa. Transferiam responsabilidades e informações, segundo ela como sinapses, segundo ele como um passe lindo de futebol que finalizava com um gol. Tudo era recíproco e muito bem encaixado. 
Ela ergueu a cabeça e o confrontou da maneira mais doce que poderia ser.
- O que tinha de errado, Gabriel? Como você conseguiu chegar aqui tão facilmente?
Analisou a expressão dele, cético. Não era do feitio dele, cadê o rosto angelical? Onde estão os cabelos loiros reluzentes, a pele clara e os olhos bem pretos? 
- Não precisa mais sussurrar. Estamos há uns 35m da rua… Eu já conheço esse lugar, Gabi. Estive aqui… com… Mariana, durante a tarde, na noite em que transamos. Desculpe. Há uma trilha aqui perto que dá direto na praça Rodrigo de Mattos, só os escoteiros usam e o pai dela é o Secretário de Turismo. Foi aqui que começou, eu estava na floresta meu amor, eu não tinha ligação com o mundo lá fora.
“Eu não tinha ligação com o mundo lá fora”. Que merda de desculpa esfarrapada é essa?
- E depois vocês foram para casa dela… - Completou.
- Sim.  
O resto era previsível. 
- Eu sei que isso vai ficar aí registrado em alguma caixa. E sei também que não importa o que eu fizer e até onde for por você - ele a puxou muito forte para si - você só estará livre disso quando você, independente de qualquer outra coisa, querer de verdade esquecer. Mas fico feliz por você conseguir me amar mesmo assim…
Eles não gostavam de pronunciar a palavra amor. 

Leia o segundo capítulo aqui.

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