30 de janeiro de 2013

Impasse

No terceiro andar tinha uma garota ruiva. Eu ficava perto da recepção na maioria das vezes, ali do lado do salão de festas e perto da quadra. Quando ela chegava eu ficava observando ela andar com o olho no celular procurando uma mensagem, eu tinha certeza que ela queria uma mensagem. A cada cinco segundos dava uma olhadela, só para ter certeza que o celular não estava louco. Um dia o porteiro trouxe um montante de cartas depois de ela ter sumido dezenove dias viajando a Maceió. Ela pegou o montante e olhou nome por nome, os envelopes eram quase todos brancos, mas eu vi um rosa e um azul no meio daqueles. Ela trocou o celular fácil pelas cartas, foi andando devagar sem se concentrar no caminho, lutou contra o envelope azul e leu um papelzinho fino. Quem manda uma carta para alguém escrito tão poucas coisas? Eu queria olhar o envelope rosa, mas o elevador engoliu a ruiva. Louco eu, fucei a portaria num dia que teve briga no salão de festas. Eu vi vários envelopes e uns coloridos, o destinatário dizia Lúcia. Depois que eu descobri o nome dela eu descobri um monte de coisas. Ela não gostava dos envelopes coloridos. Não sorria nunca com eles, vez ou outra ria com o celular, mas com o envelope nunca. Era só ela aparecer na portaria que até as árvores se escondiam em mistério. O prédio, terraço, antena, tudo a olhava lá de cima. Tinha um sapato rosa que não largava nunca, eu já vi quase tudo, menos os pés. Quando tive a oportunidade de ver os pés dela à beira da piscina, ela só tirou o corpo e manteve as pernas lá dentro. Do nada, o sapato rosa sumiu. Um dia ele não estava mais lá. Foi bem depois do dia da piscina, mas, meu, o que a Lúcia estava fazendo às quatro e catorze sozinha na piscina? Eu sempre fico na portaria, sempre. Principalmente nos casos de insônia. E eu me escondo toda vez que ela aparece, e ela aparece também toda vez que eu me escondo. No sétimo mês ela recebeu mais um montante, separou os coloridos e… Jogou no lixo? Lúcia, o que você está fazendo? São os teus envelopes! E naquele dia ela estava com o sapato rosa de novo, por que você tinha trocado, garota? Por que trocara tua roupa favorita? Fiquei surpreso mesmo quando ela esqueceu o celular. No banco do lado da lixeira. Não deu curiosidade, o celular era dela, não meu. Nem mexi no aparelho. Quatro e vinte e nove ela desceu de novo. Vi lá do meu apartamento. Abriu uma folha e começou a escrever, colocou num envelope branco e guardou. E eu nunca mais vi esse envelope. Acho que ela estava falando consigo mesma. E esperava em todas essas cartas que alguém falasse verdadeiramente com ela. Então eu tive uma ideia. Eu escrevi “Oi” num envelope e mandei para ela. Quando ela recebeu meu envelope preto e leu eu acho que ela esboçou um sorriso de canto bem fino. Aí o celular vibrou, ela desconcentrou e riu do celular. Riu mesmo e de verdade. Devolveu meu envelope preto para o porteiro alegando engano. Ela recebe todos os dias as mensagens e cartas, o sapato é o mesmo e todas as árvores do prédio sabem como ela é. Ela fica caçando mensagens e nem sonha que toda a madrugada eu fico olhando para ela sabendo desse desejo. Quer porque quer, sofre atoa e nem sabe que o garoto do quarto andar a analisa e gosta dos cabelos ruivos que combinam com o sapato rosa. Poxa, Lúcia, o que você queria mais? Você acha um “Oi” banal demais? Não era engano. Eu já te contei para as árvores, o prédio, o terraço e a antena. Eu tenho o direito de te dar um “Oi” e você deveria me responder, e não desacreditar. Eu ia te dar uma conversa verdadeira, mas você nem quer aceitar. Poxa vida, por isso ela sofre, ela nem sonha. 

Para John


2 comentários:

  1. Adorei seu blog, parabéns, muito fofo *-*

    PS: eu te indiquei em uma tag lá no meu blog, se puder dá uma passadinha lá.
    ( http://anythingcanbefashion.blogspot.com.br/2013/01/selinho-de-indicacao.html ) ♥

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  2. Obrigada Sabrina *-*
    Eba, vou passar lá e dar uma olhadinha, valeu! Beijo <3

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