14 de abril de 2015

Reticências: ordem de despejo


Nem sempre quem tem casa tem lar. Conheço gente que mora no abraço do amigo.” (Sérgio Vaz)

Estava dando uma olhadinha breve no twitter e entre um tweet e outro me deparo com essa frase. Já havia lido muitas outras vezes, mas pela primeira vez ela me fez pensar. Me fez pensar naqueles dias em que tudo que nós queremos é um abraço sem hora nem data marcada. Aquele abraço que surpreende e conforta aquilo que nem havíamos nos dado conta que estava nos afligindo. Mas têm dias que queremos um abraço bem específico, com remetente já conhecido. E por mais que a gente já tenha o nosso lar, com o nosso jeitinho, nossas coisas e a nossa cara, ele não é suficiente. Queremos fazer daquele lar já conhecido o nosso lar provisório, e não uma colônia de férias em que a gente se diverte, vive momentos únicos, aproveita e depois vai embora. E faz falta, sabe? A gente cede uns quadrinhos nossos para decorar aquelas paredes, borda a toalha de mesa com lembranças, ignora o som da TV e o único barulho que importa é o da nossa conversa (e das nossas risadas que parecem ensaiadas, de tanta sincronia). E a cama nem precisa ser grande... a menos que seja para pôr o coração, porque aí precisaremos da casa toda. E deve ser por isso que queremos morar lá de vez: parece (pode ser só impressão!) que o coração coube certinho naquele lugar. Sem falta, nem sobra.

Mas a gente tem que se acostumar. É claro que não existe nenhum outro lugar igual aquele e, agora, é nele, só nele que a gente quer ficar. Mas quando a ordem de despejo chega, não tem o que fazer. Também é sempre possível recorrer, mas até para isso tem hora certa. A gente deixa que o dono da casa rearranje seu canto, coloque as coisinhas de volta em seus respectivos lugares, deixe tudo arejado e espera que não empilhe aqueles quadrinhos numa caixa para o lixeiro levar. E depois que o lar já estiver organizadinho, com todas as janelas e portas abertas, a gente pensa em voltar e recorrer aquela ordem que a vida nos impõe. Pode até parecer que estamos ao léu, de tanta falta que voltar naquele lar nos faz, mas posso te dizer: ninguém nunca está. Há tantos outros braços e abraços em que a gente também pode caber certinho, mesmo que tenha AQUELE, o que a gente sente falta... Sem falar que absolutamente nada é permanente, não é verdade? Porém, enquanto isso, podemos passar um tempinho em outros hotéis, curtir a piscininha, e ter tratamento de hóspede cinco estrelas... Porque quando chegar a hora, não há NADA que te impeça de morar no abraço daquele amor que você não vai mais sair. Ou você entra de vez no que já visitou, ou procure a imobiliária mais próxima!

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Ana Beatriz Florêncio 

19 anos, estudante de publicidade, sagitariana, ama gatos e vez ou outra fala com o papel.

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