27 de novembro de 2012

Ela odiava ser tão poética - Cap. 4

Não, não me obriguem leitores a explicar sobre o sentimento de amor de Gabriela, descubram vocês. 

Ela se soltou dele e sentou na terra. Gabriel a acompanhou com os olhos. 
- Sabe, Gabri? - ela esperou. 
- O quê? 
- Sexo é uma merda, cara.
Ela não gostava quando faziam aquelas perguntam previsíveis do tipo “Tá louca?” “Da onde você tirou isso?” “Hã?”. Se era isso o que dizia, era isso o que queria dizer. E pronto. Ela é uma Queen-Bee, não perguntem, joguem com ela. 
- Ah, tu acha? Eu acho gostoso. - Não ousou olhar nos olhos dela, mas estava curiosíssimo. 
- Deve ser, nunca fiz. Mas sexo deve ser só uma personificação de particularidades humanas… O medo de desconhecido, a busca pelo auge de alguma coisa, o risco.
- Isso está parecendo alternativas de uma prova de Literatura.
- Calado, moleque-piranha.
Ele estranhou, onde ela queria chegar?
- Não vou brigar contigo, nem ficar brava só porque você transou com outra garota. Eu não tenho esse direito.
- Como assim? Então eu posso sair comendo todas?
- Pode. E é o que fazem. Só não te convém. Tenho que me orgulhar por você não fazer isso, por você não querer e ir atrás. Mesmo que você já tenha ido. Porque o natural todo ser humano uma hora quer isso, quer ser rei. O natural do ser humano é amar e trair. Você traiu com ela, mas amou comigo. Entende?
- Não. 
 Ela virou-se para ele e segurou o seu rosto. Era estranho exteriorizar…
- Não estou te justificando. E nem me enganando. Mas olhe só? 
Ela girou a cabeça em noventa graus à direita e à esquerda, se desgrudou dele e finalmente encostou no tronco da árvore. Ela queria se desprender tanto deles, olhar o ambiente por mais que estivessem sozinhos. 
- Nós estamos sozinhos no meio de um mata, e não, isso não me parece nem um pouco arriscado. Soa interessante, nos desliga do resto mesmo com todas as forças que fazemos para ter o controle de tudo. Em algum momento o homem resolveu brincar de abelhinha e fazer uma colônia, colocou casas e ruas e fez isso virar uma merda toda. Existe muito mais do que nosso amor, e muito mais do que nossas expectativas, Gabriel…
Ela parou para olhá-lo à luz da lua… E, droga, ele era bonito e possuía um rosto angelical. Um anjo de olhos pretos. Era isso o que ele era. 
-…Eu não estou nem ligando se você comeu alguém. Eu só quero que você me perdoe quando eu começar a errar contigo também. Quero que você erre o quanto precisar errar, mas me dê tudo o que você tenha de mais verdadeiro em você, e me encha de paciência para te perdoar quantas vezes for necessário, como hoje, e como os últimos meses. Você se saiu tão bem. Até que todo esse jogo nos leve a algum lugar… Olhe só, hoje viemos para uma mata. 
Ele sorriu. Aliviado. Satisfeito. Incrédulo. Poesia… Era isso o que vinha dela, pura poesia. 
- Quer se aventurar no mundo, é? 
Ela fechou a cara. 
- Você não entendeu o que eu disse, seu burro. Sai daqui.
- Não! Gabriela! Está louca? Desculpa. Eu te entendo sim!!!
Os trinta minutos seguintes foram dedicados a uma saudável brincadeira de Queen-Bee e seu cão fiel, os outros trinta a uma trilha o qual Gabriel andou em círculo umas três vezes. Trilha que levou direito à apresentação de Ballet bem na ponta dos pés. Inspirada, Gabriela conseguia equilibrar seu corpo magro em uma linha maravilhosamente perfeita. Não precisava de sapatilhas de ponta e nem do seu all-star, bastava os próprios pés.
No segundo círculo iniciou sua discussão sobre como as funções são utilizados pelas pessoas sem que elas percebessem. Que odiavam matemática e não gostavam nem de X e nem Y, mas tudo que falavam era um X chamado dinheiro, e um Y chamado tempo; um X chamado filhos, um Y chamado amor, um período chamado “fase tal”, um vértice máximo chamado razão e outro vértice mínimo chamado sentimento (ou proporção). Tudo isso numa função, numa mínima parte de uma infinta função. Que se quisessem e pudessem ela seria inversa, colocariam um expoente e tudo seria mais intenso, fariam módulos e tudo estaria às claras. Era só uma questão de conhecimento interno. 
- Ah! Chegamos, meu amor. - Disse aliviado em nome dos círculos e das teorias de Gabriela. 
Ele estava feliz. 
Gabriela pulou em suas costas levemente. O corpo dele era magro e forte, com poucas curvas nos braços e algumas curvas mais salientes nas pernas. Se ele fosse raquítico ou obeso, o corpo de Gabriela seria sempre leve para qualquer pessoa!
Ergueu o corpo nas costas dele e fechou os olhos fazendo força:
- Ahá! Agora me teletransporte para casa, vai. Agora. Faça-me surgir no meu quarto… Não! Não! Dentro da geladeira, estou com fome. 
Riam e ela se sentia uma criança. 
- Desce da Lua, maluca. Ei Gabi, vou te levar até em casa. Mas antes temos que decidir uma coisa. Voltarei para a Capital amanhã, Wesley vai viajar no domingo e alguém precisa administrar a empresa enquanto ele estiver fora. 
Não queria sair das costas dele, e não saiu. 
- Ele está passando por problemas, não é? Ele me mandou mensagens hoje de tarde, sinto falta dele, sinto falta da época em que todos nós vivíamos felizes para sempre na cidade pequena.
- Então, vá comigo? Falta alguns dias para as tuas férias. Fique na casa da Leid esses dois meses, leve teus pais… Que seja.
Ela estranhou. Lembrou-se que estar com Gabriel significava uma mudança drástica e incrível em sua vida. Desceu das costas dele aos poucos.
- Ficar lá? - Queria informações. 
- Sim, ficar na Capital, ver teus primos, me ver quatro vezes por semana ou mais. Por favor, no começo do ano que vem começo a faculdade, você estará estudando para o vestibular como uma idiota e não nos veremos tanto.
- Não sei. 
Exitar era sua válvula de escape quando estava sem tempo para pensar. 
- Você irá se mudar para São Paulo de qualquer jeito. Teus pais já confirmaram isso. 
- Pensarei, Gabriel. Pensarei. 
Aquelas três palavras foram o suficiente para Gabriel entender que deveria dar espaço para ela. Seguiram pela estrada estreita da praça até a casa de Gabriela, lado a lado, mudos e com um sorriso nos olhos. 
O que ele não sabia era que algo ainda a perturbava bem interiormente e isso se revelou uma verdadeira frustração para Gabriela. Martirizou-se por nunca conseguir ficar em paz, não se tratava de resolver o problema porque haviam coisas muito acima de suas filosofias exatas. Um verdadeiro erro tentar ignorar os sentimentos. Essa fora a forma que sempre encontrou de controlar os sentimentos: negá-los. E então eles ficariam presos em algum lugar lá dentro. Até que houve a Queda da Bastilha.
O destino perpendicular de Gabriel nos últimos meses servira para mostrar que em vez de aprisionar, ela se tornaria prisioneira toda vez que tentava negar os sentimentos de si mesma. Por mais doloroso que enfrentar parecesse, esse tipo de receio não passava de um convite mal feito. Ela entra nos próprios medos, mas quando sai de lá não se arrepende. Quando se via imersa ao erro, não sabia o que fazer, mas lutava, trabalhava, calculava até se ver livre e orgulhosa, sem nem perceber. Um convite mal feito para uma festa interessante dentro de medos maldosos. “Ame seus medos” era isso o que sentia.
- De que adianta uma equação incrível se for elevada a zero?
Repetiu tão baixo que Gabriel ouviu e não entendeu. Era comum aquilo, tanto quanto dançar. Ela estava digerindo alguma coisa. 
- Não despreze o 1. - Concluiu. 
.
.
Gabriel cruzou as mesas lentamente. Estava atrasado, mas felizmente não era um almoço de negócios. Passou pela porta do segundo ambiente à direita, diminuiu o ritmo até enxergar Wesley na quarta mesa, bem perto da janela. O sorriso angelical cumprimentou o irmão até que se sentasse. 
- Você demorou, cara. - A boca cheia denunciava que ele não aguentou esperar. 
- Desculpe, eu sempre me atraso, você sabe. 
O ar de Gabriel era decepcionante. Wesley não conseguiu prever isso enquanto mastigava. Mas o silêncio perdurou tempo demais.
Quando Wesley resolveu analisar o irmão, Gabriel mexia no cardápio com mais aversão do que apetite. Os olhos perambulante nos nomes faziam perceber que ele não queria parar de olhar e encarar qualquer coisa que estivesse em volta tão cedo. 
- Cadê a Gabriela, cara? 
Wesley podia não ser bom em decifrar os outros, mas com certeza a maior perturbação do irmão nos últimos dias era a semi-namorada do interior. 
Gabriel largou o cardápio na mesa, apoiou um braço na janela e segurou os lábios. 
- Ei, me diz. Tem algo errado. 
- Ela não veio. 
- Como assim? Você não foi justamente para buscá-la?
Qualquer um no ambiente poderia sentir a perturbação. Gabriel se surpreendeu ao descobrir que ela poderia fazer tanta diferença assim.
- Eu fui até lá, eu falei com ela, eu fiquei com ela, eu a convenci! - o tom aumentava tanto quanto o desespero - Mas de uma maneira surpreendente é impossível saber o que ela vai fazer. 
Wesley também se decepcionou. Tudo o que estava à volta de Gabriela se decepcionou, como essa pobre narradora. Mais do que nada, essa decepção só serve para provar que a previsibilidade estava naquilo acerca dela: a racionalidade e o medo. Não se esqueçam da imagem dançante e dos lances de escada, aquela é Gabriela e sua essência. Ingênuos somos nós de acharmos que dança é só dança, que ela é somente ela, ninguém pode prever os passos dela, e nem dançar como ela, e nem ser uma linha tão perfeita como Gabriela. 

Leia o terceiro capítulo aqui.

2 comentários:

  1. Olá.
    Postagem divulgada no Portal Teia
    Fique a vontade para pedir divulgação quando quiser.
    Até mais

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  2. Obrigada!
    Volte aqui sempre que quiser também :D
    beijos

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