28 de novembro de 2012

Ela odiava ser tão poética - final

- Cara, você a conhece tão bem, não entendi.

Soltou os garfos e olhou para o irmão. 
- Gabriel, seja claro.
Gabriel acordou cedo e nervoso naquele dia. Uma fase turbulenta e uma semi-namorada que roía seu coração dia e noite. Procura-se solução. Esses casos são mais difíceis do que se imagina. Uma coisa somente batalhava a atenção dele com todas as outras preocupações: Gabriela foi um desafio, virou uma probabilidade e agora é uma possibilidade, finalmente.
Parou o carro numa esquina, medroso. Ligou para Gabriela e previsivelmente ela não atendeu. Poderia ser a bateria, ou o sono, ou a distância do celular. O fato é que não atendeu. Atravancou os poucos metros que faltavam até uma casa construída com tijolinhos novos, um muro baixo típico de uma casa sem medo. Típico ela. 
Tocou a campainha e aguardou. 
Uma menina de cabelos despenteados, pijama mal vestido e um ursinho na mão correu em uns dez passos o que ele faria em quatro.
- Oi Gabriel, minha irmã disse que você vinha, ela deixou um envelope para você. Disse que não era para eu abrir, mas eu não aguentei, desculpa. Eu vi a aliança. Você vai casar com ela? Eu posso ser a dama de honra? - A vozinha fina de Mannuela nos dá vontade de dizer sim. 
Gabriel ouviu aquelas palavras e abriu o pacote. Um anel de ouro, puro e lindo ouro estava enrolado num filete de papel descrito: “Eu sei que você vai gostar, tanto quanto odiar. Eu te amo, desculpe.” Mais nada, nem no pacote, nem no papel, só o nome “Gabriela” em uma aliança que simbolizava o compromisso de não sei o quê. Ridículo, todos sabemos. Quando ela diz “tanto quanto odiar” é a mesma coisa que dizer “Gabriel, me odeio por ser tão poética e ridícula”.
Precisava responder Mannuela. 
- Mannu, não vamos casar. Sua irmã não está?
- Não. Aquela chata me acordou para te dar esse recado e saiu. Posso voltar para a cama agora? Eu tô com sono Gabriel!
Ele beijou os cabelos espetados da miniatura a sua frente e consentiu que ela tivesse o melhor sono com o ursinho (se ele não estava muito louco ainda se chamava Lume).
- Vá! - Mexeu na aliança e ela nunca foi tão pesada - durma bem, Mannu. 
Aquela aliança continha uma história muito maior do que a deles, e um valor simbólico infinito. Ela foi herdada pelo pai e dada à Gabriela depois de uns bons anos no auge do amor do casal. Só ouro, um amor que nunca exigiu nomes grafados. Agora o nome Gabriela preenchia o interior do arco. Era estranho que ela fizesse isso, eles sempre foram um casal perfeito, tinham tudo para ser aquilo que todas as pessoas do mundo gostariam de ter com seus respectivos companheiros. Por que só agora resolveu colocar o nome lá dentro?
Sentou na calçada e lembrou da aliança vazia. 
Realmente, concordou com Gabriela. Não havia outro nome nesse mundo que se encaixaria melhor do que o nome dela. Também era o nome dele. Poderia colocar o dedo na última letra e lá estava ele, justamente representado. Implicitamente, fazendo parte dela e da infância de uma garota que conheceu. 
A partir dali conseguiu entender tudo. A aliança deveria ser devolvida, nada de vestígios, como se ele fosse um passado que quando lembrando desperta saudade. Ela lembraria dele toda as vezes que chamassem o nome dela, toda as vezes que sentisse o cheiro salgado e lembrasse do mar, acabaria lembrando dele também. Se ela olhasse para aquela aliança teria em mente os bons anos que resultou num fim sem despedidas. Se lembrasse dele pelo próprio nome, lembraria dele como alguém, e não como uma história. 
Não importou se ele cruzou centenas de quilômetros, ele poderia ter cruzado o mundo. O garoto loiro poderia ter os melhores argumentos e todo o universo conspirar a favor, a decisão era dela. 
De fato, tudo conspirou. A nossa decepção se encontra em perceber que tudo o que eles tinham de mais especial alimentava a cada segundo o amor que poderia ser eterno daqueles que até esquecemos que existe. Talvez Gabriela seja uma vadia por deixar o amor da vida dela escapar e contrariar o que aparentemente é uma lei do universo, e uma lei perfeita. 
- Quando vão entender, Cristo, que não é uma questão de esforço?
A voz indefinível encheu os ouvidos de Gabriel. Um baque. Quando se virou um corpo magro e baixo estava atrás dele. Uma mulher incrivelmente linda, cabelos pretos formados em cachos largos um pouco abaixo dos seios, a pele num tom amarelo que não se discerne a descendência asiática ou européia… Um olho enorme e verde, a beleza de Gabriela se consumava nos defeitos que viravam mais um charme do que um defeito: Nessa pele lisa surgiam duas olheiras azuladas. 
Ele olhou firme, não entendeu e tinha o direito de não entender. 
- Eu não vou voltar contigo, mas voltei aqui para… ficar com você. 
- Não te entendo, maluca. 
A sensação de se sentir nu é pior quando não é físico. Nu de sentimento e entendimento, esse era Gabriel. 
- Espero que me perdoe. 
Aqueles olhos verdes tentou transmitir uma mensagem num olhar, e eu acho que ele entendeu. Ele se lembrou das palavras do morro “Eu só quero que você me perdoe quando eu começar a errar contigo também.
- Você já sabia não é? Que não voltaria para mim?
Ela não respondeu e ele se sentou de volta na calçada. 
- Sabe, Gabi?
- O que? 
- Amor é uma merda, gata. 
Eles já tinham visto aquela cena antes. 
Ela esperou, provando do próprio veneno por sentir coisas tão intensas. 
- Não é uma história bonita que vai fazer da gente o casal perfeito, ok. Você é tão estranha, eu achei que te conhecia tão bem. Você cresceu e eu nem percebi. Nós sempre seremos compatíveis Gabriela. Mas eu não sei o que isso significa.
- Tem certeza?
- Sim. 
- O que faz de nós compatíveis é a maneira a qual somos tão bons separadamente. Pararmos no mesmo lugar e foi um belo acaso. Não precisamos um do outro. Não vamos ser felizes para sempre e nosso amor não é o melhor do mundo, não se iluda com nossa história magnífica. Eu fico feliz por todos esses anos você ter me ajudado, com tudo sabe? Eu não sou uma pessoa plausível e só o que eu precisei foi que alguém me aceitasse. 
Realmente, ele a conhecia. Mas conhecer é diferente de entender. Sempre foi. Racional, bonita, volúvel e teimosa. Essas características não te faz ter um doutorado em Gabriela, e não é só porque ele soube de umas caixas estranhas que vai identificar todo o resto. Ou amar todo o resto.
Compatibilidade não é amor. 
Felicidade não é para sempre. 
E principalmente uma história não é sempre aquilo que vemos diante de nós. 
Tudo o que ela fez sempre foi para ela mesma, perdoar foi para vencer seus medos, amar foi para crescer, calcular calada e friamente não passou de um treinamento dos seus artifícios. Dessa parte nem ela soube, depois que tinha feito força para repelir Gabriel descobriu que o único amor que tinham de verdade era um companheirismo por longos anos, e era por isso o que agradecia.
Ao terminar de contar para o cara gordo à frente, ainda apoiado na janela e Wesley fingindo que não era nada importante, ele fechou os olhos e se lembrou de Gabriela dançando diante dos amigos e fingindo ser alguém normal.
Sorriu de canto e cedeu razão. Melhor que agora ela ficar sozinha e fazer seu dia valer a pena vivendo com companhias tão pequenas como a luz do sol, do jeito que sempre foi. Sendo fútil quando Queen-bee ou maluca em função de filosofias exatas. Os sentidos não queriam que ele fosse carta fora do baralho, mas quando se decide viver e amar alguém, abre-se mão de muita coisa. Gabriela não abriria mão das coisas que Gabriel ainda não entendia só para fazer dar certo, e depois sofrer por resquícios dela. E ela nunca abriu, viveu para si mesma até quando esteve com ele, o acaso perfeito coincidiu em tudo o que ela fez para si também ser o suficiente para manter os dois juntos. 
Uma vez fazia aquilo, noutra vez fazia aquilo outro. Confiar no coração é um tanto saudável, confiar no que ditam “cérebro” é um tanto confiável, mas dessa vez só deixou seus pés a levarem. Seja a Gabriel sim ou não, qualquer outro lugar sim ou não, era a vez daqueles membros personificarem o destino… Por que todos só dão atenção ao coração e ao cérebro, mesmo?
Histórias perfeitas não fazem tudo dar certo. 
Mesmo que não fosse perfeita, mesmo que fossem como gato e rato tentando ser felizes. Ela tinha coisa demais para distribuir nesse mundo, ela era poética demais para corromper tudo o que era só porque algo foi aparentemente feliz. E ela era assim, por vez. 
Ela tinha uma visão maravilhosa, mas no âmbito das sensações finalmente um sexto sentido superou o seu olfato. Ela podia se renovar a cada segundo, fechar os olhos, sentir e ouvir o que quisesse, mais e melhor, era só uma questão de vontade. Vez ou outra, andando pela rua ou quando acordava, sentia o cheiro de dia, cheiro de vento, cheiro de coisas subjetivas e então algumas lembranças se manifestavam em espectros que ela conhecia, mas não se concretizavam de fato em memórias. Do que ela estava lembrando? - se perguntava. Acabava por se lembrar, enfim, de pessoas distantes e de instintos desconhecidos, a felicidade de alguma forma a consumia e ela se sentia completa por si mesma. E era assim que o dia dela valia a pena.s.

Leia os capítulos anteriores aqui1 aqui2 aqui3 aqui4.

9 comentários:

  1. Queria que ela tivesse ficado com ele no fim :((((

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  2. Meu nome é Gabriela, poxa, só me falta meu Gabriel né? hahahahaha

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  3. Ela ficou feliiiz poxa, mesmo sem o Gabriel (: fico feliz por ela...

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  4. Ah que linda história, acho que os dois poderiam ficar bem juntos ou separados, mas não consigo imagina Gabriel com outra ou vice e versa ... Parabéns pelo blog linda <3

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  5. Por um lado queria que eles tivessem ficado juntos, por outro gostei da história assim.. rs
    Também não consigo imaginar o Gabri com outra D:
    Obrigada, anjo! <3

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  6. Meu Deussss. Ainda não acredito! haha, você é MUITO igual a mim. Apesar do nosso blog ter quase a mesma url, rs... não é por isso. Gosta de escrever e é muito romântica *o* Tem 16 anos também, certo? uau, encontrei minha irmã gêmea. UHAIUHSAUSHA, amei seu blog flor... sério, vou visitar aqui sempre agora <3 to seguindo você. sucesso, viu?
    O meu é esse aqui: http://www.doce-pensamento.blogspot.com

    É humilde, comecei dia 21. Mas quem sabe você não se identifica com uns textos? hihi, beijos beijos beijos.

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  7. Mari, linda <3 sério que somos tão parecidas assim? UOU! hahaha. Sim, sou romântica, tenho 16 anos também.. que legal achar alguém assim mano hahaha.
    Que bom que gostou do blog, volte sempre, viu? E vou dar uma olhadinha no seu, pode deixar rs.
    Beijos! <3

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