5 de outubro de 2016

DESCULPE O TRANSTORNO, PRECISO FALAR DELE


Conheci ele na escola. Essa frase pode parecer romântica se você imaginar a gente numa faculdade, se esbarrando num corredor com armários antigos, deixando nossos livros - que estavam nas nossas mãos - caírem. Mas a escola em questão era aquela em que todo mundo da cidade sonhava em estudar; mas nem todos estudavam. Ele estudava lá. Meus melhores amigos estudavam lá. Eu estudava lá e passava as manhãs e às vezes as tardes com eles. Ele estava lá. Descendo as escadas. Nunca vou me esquecer do momento de ele me dando um oi com um aceno.

Quando os meninos estavam com alguém, ele estava lá jogando futebol. Quando eu estava mal, ele parava o que estava fazendo para me ouvir. Quando eu queria que tudo tivesse fim e ele se afastasse de mim, ele fazia o oposto. Os olhos, sempre imensos e castanhos, deixavam claro que ele não fazia ideia do que estava fazendo. Foi paixão à primeira vista. Só pra mim, acho (na verdade, tenho certeza).

Passamos algumas madrugadas conversando no msn ao som de Camp Rock. De lá, migramos para o tumblr, do tumblr para o inbox, do inbox para o whatsapp.

Nunca namoramos. Mas eu sabia que a minha vida começava ali. Vimos alguns dos mesmos filmes. Alguns várias vezes. Trocamos algumas opiniões e recomendações sobre novas músicas, algumas não tão boas assim. Fizemos todos os textos possíveis no tumblr. Acabamos a conversa, apesar de estar boa. Escolhemos camisas para o primeiro dia de aula sem pesquisar a previsão do tempo. Escrevemos juntos declarações e discussões filosóficas. Fizemos uma dúzia de amigos novos e de repente, estávamos em cidades diferentes. Eu fiz mais de 50 textos, viu? - acabei de contar. Sofremos com os haters e rimos (e muito) com os shippers. Nunca tivemos a chance de dividir o fone de ouvido. Das dez músicas que mais gosto, a maioria me lembra ele. As outras ele gravou e colocou no YouTube. Aprendi o que era alguns conceitos de informática, luva suja da aula de química, questões de geografia, e algumas coisas que o Word tá sublinhando de vermelho, porque o Word não teve a sorte de conhecer e conviver com ele.

Um dia, não nos vimos mais. E, pra mim, não foi fácil. Chorei mais que no final de "Amanhecer". Mais que no começo de "Um Olhar Do Paraíso". Até hoje, não tem um lugar da minha antiga cidade que eu vá que alguém não me pergunte: viu ele? Parece que, pra sempre, ele vai fazer falta. Se ao menos a gente tivesse tido algo, eu penso. Levaria ele pra sempre comigo.

Essa semana, pela segunda vez, vi uma foto de nós dois juntos - não por acaso na nossa cidade preferida. Achei que fosse chorar tudo de novo. E o que me deu foi uma felicidade muito profunda de ter vivido um grande amor na vida (mesmo que não correspondido). E de ter esse amor documentado em diários - e em tantos cadernos, poemas e crônicas. Acho que não falta nada.

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